
Miuzela - A Terra e as Gentes
(extractos da obra)
1. ENQUADRAMENTO ADMINISTRATIVO
A Miuzela é uma freguesia da Província da Beira Alta, Distrito da Guarda e do
Concelho de Almeida. Está localizada numa encosta, virada a poente, no grande
planalto, que se estende desde a Guarda, pela fronteira fora, e é sulcado, entre
outros, pelos Rios Côa e os seus afluentes, a Ribeira das Cabras e o Rio Noemi.
O limite da Miuzela encerra uma área da ordem de 1420 ha (hectares). Dista,
aproximadamente, quatro quilómetros do Rio Côa e uns dois quilómetros do Rio
Noemi, vulgarmente designado pela "Ribeira". A Miuzela é um julgado, que
pertence à Comarca de Almeida, tendo já pertencido às Comarcas de Trancoso, de
Pinhel e do Sabugal.
Tem um apeadeiro, no caminho de Ferro da Linha da Beira Alta, que dista da
povoação, cerca de dois quilómetros. Tem um posto da Guarda Nacional
Republicana, dependente do 4° Grupo da Guarda, que pertence à 5ª Brigada,
sediada em Coimbra. Tem um posto médico, um posto público de telefone e um posto
de Correio. Não tem anexas.
Há também, uma outra povoação, com a designação de Miuzela, anexa à freguesia
das Antas, no Concelho de Penalva do Castelo.
1.1 Origens
1.1.1 Quem foram os nossos Avós?
A região da Miuzela tinha boas condições para a existência do homem
pré-histórico, mesmo nos períodos do Paleolítico e do Neolítico. Tem um vasto
horizonte, no qual se avistava a caça e o inimigo. Tem grutas e cavernas
naturais, nas várias ravinas, e por baixo dos barrocos; tem a água das fontes;
correm rios e riachos. Dispunha de carne de javali, de cabras, de gamos
selvagens, de coelhos e de aves. Havia peixes e rãs nos rios Côa, na Ribeira e
nos riachos. Tinha as bolotas dos carvalhos, as castanhas, os mustajos, os
abrunhos, as amoras e as ginjas. Tinha verduras frescas e naturais, como as
meruges, as "baldroegas", as "leitugas", etc..
A descoberta recente das figuras rupestres nas margens do Côa, na região de
Castelo Melhor e Vila Nova de Foscôa, vem confirmar esta hipótese.
Os lusitanos teriam ocupado esta nossa região (entre Douro e Tejo), já no séc.
IV a.C., de mistura com os turdulos, segundo Frei Bernardo de Brito (“Monarchia
Lusitana”, vol. I, Cap. XXX). Os lusitanos tinham uma civilização, agrária,
pastorícia e guerreira, relativamente, avançada,
Eram aguerridos e formavam várias tribos, numa espécie de federação, sem
qualquer coesão política. Concentravam-se em aglomerados fortificados, vivendo
da agricultura, já bastante desenvolvida (a vinha, o trigo, a cevada), do
pastoreio e da pesca. Exploravam também os metais.
A região dos Hermínios e as "suas beiras", eram povoadas pela tribo dos vetões,
uma das mais evoluídas da Lusitânia. A região da Miuzela teria pertencido,
então, à Vetónia.
Quando os Celtas chegaram, já na Idade do Ferro, os lusitanos eram muito mais
evoluídos.
No séc. II a.C., os romanos iniciaram a conquista da Lusitânia, o que não foi
muito fácil. Os lusitanos, comandados por Viriato, senhor duma estratégia local,
exímia (era um conhecedor profundo dos vales, desfiladeiros e montanhas dos
Hermínios), bateram por várias vezes os romanos. Em geral, atraíam-os em ciladas
e, usando a guerrilha, conseguiam dizimar as legiões romanas.
Depois do assassínio de Viriato, as legiões romanas quase bateram os lusitanos,
que, no entanto, ciosos da sua autonomia, conseguiram a chefia de Sertório,
general romano, exilado (depois das lutas entre Mário e Sila) e, assim,
continuar a resistência e derrotar os romanos. Sertório foi, também,
assassinado, no ano 72 a.C., terminando a luta com a submissão dos lusitanos,
que, mesmo assim, resistiram quase dois séculos à invasão romana. Mais tarde,
com César e Pompeu, começou a romanização da Península Ibérica, que, em rigor,
corresponde à fase proto-histórica de Portugal.
O domínio romano tornou-se definitivo na região e trouxe a paz e a prosperidade,
levando os lusitanos a adaptarem-se e a romanizarem-se.
Os romanos organizaram, administrativamente, a Península, em várias províncias,
entre as quais se distinguia a Lusitânia, que ia desde o Douro, passava o Tejo,
até ao Guadiana. Abriram estradas, construíram pontes, aquedutos e outros
monumentos, cunharam moeda, fomentaram a exploração de metais e incentivaram as
trocas comerciais. Desenvolveram a agricultura e os grandes centros urbanos e
fundaram grandes cidades.
Deve-se aos romanos a instituição dos municípios (concelhos, termos), que
perduraram, pode dizer-se, até hoje.
Além do mais, legaram-nos o direito e a língua latina, que constitui a base do
idioma galaico-português, do qual resultou o português, A "pax romana" gerou um
bem estar nos povos e, verificou-se um grande aumento da população na Lusitânia
(1.200.000 habitantes, segundo Plínio).
Entretanto, no séc. V, deu-se a invasão da Península pelos alanos e vândalos,
que ocuparam a nossa região da Lusitânia e pelos suevos, que foram fundar um
reino na região do Minho-Galiza.
Depois, por volta de 415, vieram os visigodos, que constituíram um poderoso
império na Península. A monarquia visigótica durou 150 anos e foi nesta fase,
que se instituíram as grandes dioceses do futuro Portugal, designadamente, as
que mais interessam à história da Miuzela e da região, como a de Viseu, a de
Lamego, a da Egitânia e a de Caliábria, a que adiante nos referiremos, em
pormenor.
A monarquia visigótica entrou em crise e, em 711, dá-se a invasão árabe, ou
antes, a invasão dos berberes e mouros, apoderando-se, rapidamente, dos
territórios, em que se havia de formar Portugal. A Lusitânia caiu em 713 e em
716 os árabes já estavam em Alfaiates e, portanto, dominavam também a região em
que se viria a desenvolver a Miuzela nos séculos IX e X.
O domínio muçulmano acentuou-se e durou até à reconquista Cristã, que começou
por expulsar os árabes da Galiza, até ao norte do Douro, logo no séc. IX. Mas, a
nossa região, só teria sido libertada, mais tarde, nos séculos X e XI, por
Fernando Magno, passando a fazer parte do Reino de Leão. Parte dos mouros foi
reduzida ao cativeiro, enquanto que outra parte abandonou a região,
deslocando-se para as regiões do Sul da Península. Claro que os moçárabes
(cristãos com hábitos e culturas árabes) tiveram um papel decisivo na
reconquista e, depois, no povoamento dos territórios, que iam sendo
conquistados.
Os árabes legaram-nos, além das práticas agrícolas, e de algumas técnicas,
muitos termos, (substantivos), em geral, começados por al, az ou aç, tais como
aldeia (al-dai'a), alcaide (al-qa'id), albarda, alforges, etc.; azeite (aceite),
azêmola, azeitona, azebre, azenha, etc.; açafate, açude, açougue, etc..
Deixaram-nos, ainda alguns hábitos de higiene e a tradição de muitas histórias
sobre moiras encantadas e uma certa propensão para o fatalismo.
À região de Ciscôa (de aquem-Côa, portanto, a Miuzela), fez sempre parte de
Portugal desde a sua fundação, mas a posse só ficou consolidada nos tempos de D.
Sancho I e D. Sancho II, que deu a Castelo Mendo o primeiro foral (1229).
A região de Além-Côa só viria a passar, um século depois, para a posse de
Portugal, já no tempo de D. Diniz, após o tratado de Alcanices (1297).
Depois, seguiram-se as vicissitudes do Reino de Portugal, através da sua
história, até aos nossos dias.
1.1.2 Como terá nascido a Miuzela
É, extremamente, difícil falar sobre a origem de povoados, quando não existem
documentos ou, pelo menos, uma forte tradição oral. Quando muito, podem fazer-se
conjecturas, baseadas em teorias, mais ou menos, plausíveis.
Segundo alguns autores, a maioria dos povoados antigos da Beira ter-se-ia
desenvolvido, em pequenos aglomerados, em torno, ou nas vizinhanças, de
"castros" lusitanos, alcandorados em montes ou colinas, que, depois, se teriam
transformado nos "oppida" dos romanos. Às "citânias celto--lusitanas"
(aglomerados mais importantes), seguem-se as "vilas romanas".
Com base nesta teoria, podemos explicar a tradição, que corria ainda na minha
infância, da existência de um povoado ou aglomerado anterior ("outra pequena
Miuzela"?), nas proximidades do "Barroco Longo" e da "Fonte Nesteva", onde
teriam sido encontrados alguns vestígios de uma povoação (cacos de telhas;
restos de paredes soterradas; minas e valados, etc.).
Como se depreende dos trabalhos do general João de Almeida, podemos admitir a
existência de um pequeno castro lusitano ou de um fortim nos "Altos do Moinho de
Vento"3, onde está instalado o ponto geodésico.
De facto, trata-se de uma linha de alturas estratégica, que tem um vastíssimo
horizonte, principalmente, para nascente, onde se enxergam as terras de Além-Côa,
até às serranias de Espanha (Guadarrama, etc.) e para poente, onde se avistava
todo o planalto, com os "Altos da Parada", os "Montes do Jarmelo", a Guarda, e,
ao fundo, a Serra da Estrela. Para norte, descortina-se a "Marofa" e, em dias de
boa visibilidade, até, as Serras de Trás-os-Montes. Para Sul, a Serra da Malcata
e outras "Serras do Sabugal", a Serra de S. Martinho de Trabejo. E, o que é
importante, dos altos de Santa Bárbara e do Moinho de Vento enxerga-se ainda a "Citania
Oppidana" (Verdugal), forte estação romana, que se desenvolveu na região
planáltica da Meseta, entre o Côa e o Águeda, a uns quatro quilómetros da
Malhada Sorda.
Os altos do "Moinho de Vento" eram, pois, um lugar apropriado, por excelência,
para a construção dum castro. As pedras aparelhadas, que por ali existem, em
casas antigas, e as dos alicerces do velho moinho de vento e as das bancas do
antigo mercado das vacas, poderiam ter sido provenientes de um castro, que
constituía, também, uma atalaia de observação e de vigia do inimigo.
Segundo Frei Bernardo de Brito, toda a região entre o Douro e o Tejo, até Viseu,
e, portanto, o planalto, teria sido ocupado pelos túrdulos (Cudanos de Ciscôa e
Transcudanos de Riba Côa; para os romanos o Côa era designado por "Cudam");
depois, a região foi tomada pelos romanos e, posteriormente, pelos suevos e
visigodos; a seguir (712), foi dominada pêlos árabes (e mouros) e, finalmente,
depois da Reconquista (Fernando Magno em 1039), foi ocupada pelos Cristãos do
Reino de Leão. A influência romana está patente na região, como demonstram a
etimologia do termo Miuzela, alguns achados na Ade e na Miuzela, a existência de
sepulturas cavadas na rocha ("Porto Mancal", "Eiras Velhas") e o aparecimento,
segundo consta, de uma ânfora. Também há notícia de que se encontraram moedas
romanas nas proximidades da Ponte de Sequeiros.
A verdade é que houve, depois, um longo período, que se estendeu até D. Sancho I,
em que toda a região do planalto da Guarda e do Jarmelo, foi palco de lutas e
pelejas, entre os cristãos e os mouros, alternando a sua posse, entre os
leoneses e os mouros. Finalmente, a região da Miuzela ficou, a partir de D.
Sancho I, na posse definitiva dos portugueses. Como se sabe, devido às incursões
constantes dos mouros, e a fim de assegurar melhor a defesa do Reino, como
havemos de ver, D. Sancho I transferiu a Sé da Egitânia (Idanha) para a Guarda.
É natural que, na fase anterior à Reconquista, existissem pequenos aglomerados
populacionais, dispersos pela encosta suave e de boas terras expostas a nascente
e entremeadas pelos pequenos vales do "Barroco Longo" e da "Fonte Nesteva". Toda
esta zona, até à "Nave do Clérigo", é muito aprazível e bastante fértil. Aquela
localização permitia estar de atalaia e enxergar o inimigo invasor, que vinha,
sempre, de leste, seguindo, no horizonte, a linha de defesa natural, que era o
Côa e, assim, organizar a defesa.
Depois, com a quase ocupação de toda a Península pelos árabes, viveu-se um
período de quase dois séculos, sem guerras, até se dar a reconquista cristã,
alastrando do Norte e do Leste.
Teria sido neste período, de domínio sarraceno, que a actual povoação da Miuzela
(Miosella - cujo étimo é de origem latina) se começou a concentrar e a
desenvolver na outra encosta, mais declivosa, mas mais banhada pelo Sol, tão do
agrado dos árabes, começando por pequenos núcleos de moradores, aglomerados em
torno das fontes "do Barroco", das "Amigas Velhas", "do Vale" e da "Santa
Bárbara", como preconiza o Dr. Brardo. Estas fontes, todas de mergulho, são do
tipo romano-medieval.
Como quer que seja, na Idade Média, a Miuzela (Miosella) já devia ter sido uma
povoação importante na região.
1.2 Origem do Topónimo Miuzela
A pedido do Prof. Malaca Casteleiro, um seu colaborador, especialista em
etimologia, abordou o problema da origem do topónimo Miuzela. Pelo seu interesse
vamos transcrever, parcialmente, o seu estudo.
Depois de algumas considerações, sobre a identificação da Miuzela, da sua
situação geográfica, etc., diz o seguinte:
"Acresce que em todo o País, não é referida qualquer outra povoação, cujo nome
se inicie por Mu..., sendo já fácil de explicar a parte final da palavra
(-zela), que corresponde a um diminuitivo de origem latina.
Dado que a povoação se situa junto da Raia de Espanha, ainda mais próxima, antes
do Tratado de Alcanices, consultei nomes comuns no "Diccionário crítico
Etimológico Castellano y Hispânico" de Joan Corominas (Madrid, 1989); encontrei
o nome Miul no artigo de médio (Vol. IV, pág. 15), havendo também as formas
portuguesas miul e miúlo (zona da Serra da Estrela) do latim "modiolus", que
designam o meão do rodado do carro de bois, peça que ocupa todo o diâmetro da
roda e no qual o assentam as cambas.
Talvez que o facto da localidade na sua parte mais alta e antiga se situar no
cimo duma prolongada lomba com as vertentes para a Ribeira do Noemi e para o Rio
Côa, levasse a privilegiar no nome a noção de situação intermérdia (como é a do
miúlo da roda do carro de bois), escolhendo para base do nome da localidade miul,
a que se juntou o sufixo diminuitivo latino -cilla, que normalmente evolui para
-zela, em Português. Veja-se o que acontece na palavra donzela: Domina > domna
"senhora" + cilla > dommicilla > donzela (J. Corominas. vol. II, pág. 531)"
Outros colaboradores do Prof. Malaca Casteleiro analisaram também o problema.
O topónimo de Miuzela resultaria, assim, de ser uma "localidadezinha", que fica
numa posição intermédia entre o Rio Côa e a Ribeira do Noemi no cruzamento das
estradas Imperial da Guarda a Salamanca e a Transversal, secundária que, vinda
do Norte, se dirigia pela Ponte de Sequeiros para Alfaiates, passando por Vilar
Maior, etc. (General João de Almeida).
Ficava também numa posição intermédia entre as estações Romanas de Lancia
Oppidana4 (Guarda) e Citania Oppidana5 (Verdugal, Malhada Sorda).
A grafia Miosella ou Miosela é uma corrupção de Miuzela, visto que o radical
mios é de origem grega, com significados de rato ou de músculo, que não se
ajustam às circunstâncias. Além disso, não seria coerente juntar um sufixo
latino (-cilla) a uma raiz de origem grega (mios).
Por isso, para terminar o Dr. José Ribeiro Pereira, conclui dizendo:
"Com os elementos disponíveis não me foi possível chegar a posição mais
plausível."
1.3 O Crescimento da Miuzela
A freguesia da Miuzela pertenceu, desde a Idade Média, até 1855, ao Concelho de
Castelo Mendo, que no século XVI se estendia por cerca de 150 km2. As freguesias
que constituíam este município eram: Adem, Aldeia Nova, Amoreira, Cabreira,
Castelo Mendo (Santa Maria. S. Pedro e S. Vicente), Cerdeira do Côa, Freixo da
Raia, Leomil, Mesquitela, Mido, Miusela, Monte Perobolço, Parada, Peva e
Chavelhas.
Eram, ao todo, 18 paróquias e 16 povoações, que constituíam, também, o
Arcíprestado de Castelo Mendo.
Pelo interesse, que poderia ter para a Miuzela, consultámos os forais de Castelo
Mendo (de que temos cópias).
Como se sabe, Castelo Mendo teve dois forais. O primeiro foi-lhe concedido por
D. Sancho II e foi-lhe outorgado em Vila Touro, no dia 15 de Março de 1229. O
segundo, o foral novo, foi-lhe outorgado por D. Manuel, em Santarém, em l de
Junho de 1510.
A sua leitura é interessantíssima, pelas indicações preciosas que nos fornece,
sobre os direitos, os deveres e os privilégios dos moradores. No entanto, em
nenhum deles se menciona, explicitamente, a Miuzela.
O foral de D. Sancho II (escrito ainda em latim bárbaro) dá os limites do
Concelho, que incluem a região da Miuzela:
"Términos autem de Castello menendo do vobis ut teneatis de portu de sciada, et
deinde per monasterium de magidi, et per fundum de azial velido, et quomodo
intrat piizeo in pinel et per portellam de adima, et deinde per portum mauriscum
et per cabeçam de cerzeyra, et deinde ad cabeçam hominis, et quomodo intrat
vallongum in Coam".
Na altura em que D. Manuel outorgou o "foral novo", os limites do Concelho de
Castelo Mendo estavam mais bem definidos, como veremos, ao tratar do capítulo
sobre a evolução da população da Miuzela.
Há uma fonte de informação, muito interessante, que é o "Catálogo de todas as
Igrejas, Comendas e Mosteiros que havia nos Reinos de Portugal e Algarves pelos
anos de 1320 e 1321 com a lotação de cada uma delas" (publicado por Fortunato de
Almeida, 1910: A História da Igreja em Portugal). Neste documento se diz que o
Papa João XXII, por uma bula expedida de Avinhão, em 23 de Maio de 1320,
concedeu ao Rei D. Diniz, por três anos, a décima das rendas eclesiásticas, para
fazer a guerra aos Mouros, com excepção das igrejas, comendas e benefícios da
Ordem de Malta (Ordem dos Cavaleiros de S. João do Hospital de Jerusalem). Para
isso, o Papa mandou averiguar, directamente, essas rendas por todos os Bispados
de Portugal.
As décimas eram pagas em libras. Cada libra valia 36 reais ou 20 soldos (cada
soldo valia 1,80 reais, ou 12 dinheiros).
Vamos transcrever, na íntegra o documento na parte que nos interessa.
"Igrejas da Terra de Castello Mendo -
A igreja de S.Vicente foi taxada em cento e vinte libras. 120
A de Santa Maria em cincoenta .......................................... 50
A de S. Pedro em setenta.................................................... 70
A de Santa Maria de Loimil em duzentas libras............ 200
A de Santo André de Telões em quarenta........................ 40
A de Santa Maria de Moreira em trinta ............................ 30
A de Santa Maria Magdalena de Cabreiros em trinta...... 30
A de Santa Maria de Cerzeira em oitenta......................... 80
A de Santa Maria Magdalena Denceme em cem ............ 100
A igreja de Santa Maria de Porto de Ovelha em vinte libras... 20"
Como se vê, a Miuzela, ao contrário da Cerdeira ("Cerzeira"), de Porto de
Ovelha, da Cabreira, etc. não figura, directamente, na lista, mas supomos que
figura, implicitamente, como vamos mostrar. O vocábulo Denceme, que figura na
lista, em nono lugar, não é nome de nenhum lugar conhecido. Supomos que resultou
de um erro de ortografia, (o c, facilmente, se confundia com um o) tão comuns
nas cópias e translados de documentos medievais. Deve, portanto, interpretar-se
De noeme.
Por isso, aceitamos que a freguesia de Santa Maria Magdalena De noeme, entre a
Cerdeira e Porto de Ovelha só podia ser a Miuzela. No arciprestado de Castelo
Mendo, além da Miuzela e da Cabreira, só as paróquias de Peva e de Aldeia Nova,
também, têm Sta. Maria Madalena como padroeira; no entanto, nenhuma delas
poderia pagar uma décima tão elevada, nem sequer estão próximas do Noemi. Por
isso, aceitamos que a paróquia, não mencionada de forma explícita, que figura
entre a Cerdeira e Porto de Ovelha, é a Miuzela.
A taxa a pagar (100 libras) era já uma renda eclesiástica respeitável e
constitui um elemento relevante para aquilatar da importância da Miuzela,
relativamente às povoações vizinhas.
Em 1855, por decreto de 24 de Outubro, já, depois, da grande reforma de Mouzinho
da Silveira (1834), foi extinto o Concelho de Castelo Mendo e as freguesias, que
o constituíam, foram distribuídas pelos Concelhos do Sabugal e de Almeida. A
Miuzela foi, de início, anexada ao Concelho do Sabugal, onde se manteve até
1895, tendo passado, depois, por Decreto de 12 de Junho, para o Concelho de
Almeida. Ainda que pertencesse, até 1881, à Diocese de Pinhel, e judicialmente à
comarca da mesma cidade, administrativamente, pertencia ao Distrito da Guarda
(reforma de Mousinho da Silveira).
1 Nos começos deste século constituiu-se uma Sociedade de Moagens, que contruiu
ali um edifício grande, caiado de branco para a sede da fábrica de moagem, que
além das "máquinas" utilizaria também o vento.
1 Do latim, Oppidamis, a, um, adjectivo referente a vila ou cidade murada ou
muralhada. 5 Designação do General João de Almeida.